ABC dos Revoltosos

A ABC dos revoltosos relata a passagem das tropas legalistas de Horácio de Matos no povoado de Gentio (Ceraíma) no ano de 1926. Este ABC, criado naquela época é lembrado e cantado até hoje pelos mais antigos da região de Ceraíma e Morrinhos. Desde criança ouvi meus parentes e pessoas mais próximas falar e cantar o ABC. Ouvi da minha saudosa avó Leonor e de Dona Benedita, saudosa avó da minha esposa. Uma das duas senhoras mais antigas, nascidas naquele povoado, lembram até hoje desse ABC, A Tia Nelsa e Dona Julinha. Ouvir o senhor Claudinor Othon Teixeira (Louzinho) recitar este ABC completo recentemente em Morrinhos.

Antônio Othon e Generaldo são respectivamente meus bisavôs, paterno e materno.

Bertolo é pai do falecido João Ribeiro, avô de Edvaldo, Fátima e Lícia.

A passagem da tropa dos legalistas é relatada no livro “Respingo histórico” do escritor Teixeirinha. E, este mesmo ABC é comentado nas obras do meu primo Dário Teixeira Cotrim.

A

Agora estou ciente

Da revolução no Brasil

No comércio do gentio

De 10 a 20 de abril

Vi mais de 600 homens

Todos armados a fuzil.

B

Bons cavalos, boas bestas

Estavam requisitando,

Os porcos e as galhinhas

Iam de tiro matando,

Pois até os próprios donos

Estavam depressa ajudando.

C

Cesar Meira quando soube

Dos homens em Caetité

Veio avisar os irmãos

Para retirarem as mulheres

A constância foi tão grande

Que ele veio de noite a pé.

D

Deu-se grande revolução

Quando chegou tal notícia

No outro dia bem cedo

Só se via rebolição

As mulheres se reuniam

Como quando vão pra missa.

E

Eu quando vi Manoel Quirino

Que vinha na linha da frente

Generaldo foi dizendo

Lá vem o povo minha gente

Aqueles são os revoltosos

Ou então alguns tenentes.

F

Foi chegando o Quirino

Falando de uma só vez

Preciso de muitos animais

Mande matar uma rez

Os moços bons do gentio

Fizeram o que nunca fez.

G

Generaldo estava perto

E chegou no mesmo instante

Com toda a amabilidade

De uma prosa elegante

O senhor já era esperado

Desmonta comandante.

H

Homem até bem educado

Quando entrou pela porta

Generaldo apresentou

Ao seu padrinho Antônio Othon

Gente do coronel Horácio

Do batalhão patriota.

I

Imagine Antônio Othon

Que fez logo um rapapé

Havemos de arranjar tudo

E alguma coisa que quiser

E determina Lindolfo

Mande fazer um café.

J

Já o povo foi desconfiado

Logo ficando com medo

Os que eram mais ladinos

Foram saindo enquanto cedo

Na hora que foi entrando

A turma do Zé Macedo.

K

Kalar até é melhor

Do que conversar asneira

Joaquim Cebola Pilando

E o Durval na peneira

Passou uma noite de pé

O velho Quinca de Júlia

Puseram varrendo a feira.

L

Lindolfo eu já disse

Que foi fazer muito café

Sem tempo de coçar pulga

Passou uma noite de pé

Quando achou uma escapula

Foi embora pro rega pé.

M

Muito abalou-se Antônio Othon

Quando viu o comércio encher

Consultou com Generaldo

O que havemos de fazer

Generaldo respondeu

Nós não devemos correr.

N

Ninguém não pode informar

Nem também dizer o nome

Pois não se pode contar

O procedimento dos homens

Deixaram todos a pé

Ainda morrendo de fome.

O

Outro até variado

Como o pobre Eliseu

Por causa da revolução

Abandonou o que era seu

Até hoje ninguém sabe

Onde ele se escondeu.

P

Patrício da primeira turma

Tinha passado de liso

Mas quando foi na segunda

Ele entrou no prejuízo

Por causa de animais

Quase ele perdeu o juízo.

Q

Quando Olegário saiu

Levando até as galinhas

Chave velho saiu atrás

Leve as tuas e as minhas

E Felipe do Sacoto

Com três quartos de farinha.

R

Rapaz, mulher e menino

Todos foram no cipó

Dar comida muriçoca

Coisa que fazia dó

Tanto o rico como o pobre

Foram todos de um preço só.

S

Sabe quanto se sofreu

Por eles mesmos contarem

Que passavam a noite em pé

Sem ter aonde deitar

Antes do dia amanhecer

Já mudavam de lugar.

T

Tenho muito arrependimento

De ter-me retirado

Levando minha família

E deixando os outros pegados

Como Antrão e Zá Othon

E Sebastião Pintado.

U

Uns correm para o Baixio

Outros para cima do morro

Pedindo aos moradores

Que lhes dessem algum socorro

Tampando a boca dos meninos

E amarrando a dos cachorros.

V

Viva, Horácio de Matos

Que é chefe da Bahia

Porque tem sua cachoeira

Pra fazer arrelia

Vejam quanto os homens dele

Passaram aqui outro dia.

X

“Xoram” uns pelos porquinhos

Outros pelos animais

Jaqué e Joaquim Pedreiro

Pelos seus canaviais

E o velho Porfírio Caco

Pela cerca do quintal.

Y

Y é letra grega

Que serve de marmota

Não podendo esquecer

Do batalhão patriota

Para encontrar esse povo

Só se fosse idiota.

Z

Zezé do cocho mais Bides

Para salvar os animais

Montaram em toda carreira

Não olharam para traz

Quando ouvia os gritos deles

Cada vez corriam mais.

Til

Til é letra do fim

Que remota o A B C

Uns não podem falar doutro

Que todos foram esconder

Quem por este se agravar

O que havemos de fazer.

 

Vogais:

A

As letras vogais são seis

Nelas formam confusão

Ricos e pobres correram

Não puderam mostrar brazão

A ocasião foi própria

Corremos com muita razão.

E

É certo meus caros amigos

Ricos e pobres também

Eu tirei este A B C,

Sem agravar a ninguém.

Quem por este se agravar

Tire um de mim também.

I

Isto eu vi escrito

Porém, não deram o fim

Escreveram até o AZ

E o resto toques a mim

Quem por este se agravar.

Pode tirar um de mim.

O

Olha aqui os escrivões do A B C patriotas

Generaldo de Souza Teixeira

E o major Antônio Othon

Pedindo desculpas a todos

Pra não servir de marmota.

U

Ultimamente senhores

A data que aqui incliva

Gentio primeiro de Maio

De 26 saraíva

Concluindo este A B C

Bertolo Ribeiro da Silva.

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