O DIA EM QUE UMA MOEDA QUASE PROVOCA UM DILÚVIO

Em nossa cultura regional e nacional há muitas estórias de lendas e mitos. Uma delas é, que ao colocar uma moeda no caixão de uma criança, que morreu com poucos dias de nascida, provoca chuvas.

Em Umburanas (Guirapá), localizada próxima à região de Guanambi, em torno da década de quarenta aconteceu uma história da moeda colocada no caixão de uma criança que quase provocou um dilúvio. Parentes e conhecidos da minha família, e os mais antigos da região, sabem até hoje e cometam este episódio que aconteceu naquele povoado.

Em uma época de longa estiagem em Umburanas (Guirapá – BA), a lagoa que abastecia aquele Distrito e região estava seca, rios e riachos também. No seu curso, as cacimbas eram cavadas, onde encontrava um pouco de água para população e animais. Tudo que as culturas e lendas sabiam para provocar chuva já tinham sido feito. As mulheres estavam cansadas de subir o morro, com os potes e latas cheios de pedras, rezando ladainhas. Todos os tipos de rezas aos santos foram feitas, mas nada resolvia. Os mais antigos faziam experiências e nada apontava que iria chover em breve naquela região.

Eis que falece uma criança com poucos dias de nascida. Era filho de uma família conhecida e tradicional da região. A população de Umburanas, solidária compareceu ao velório. Após rezas e orações concluídas, era hora de fechar o caixãozinho e seguir com o trajeto para o cemitério local.

O senhor Tio Donério, chefe político e pessoa muito respeitada na região, aproxima-se do caixão, coloca uma moeda de quinhentos contos de reis e faz um pedido para São Pedro mandar chuva, para acabar com a seca da região. Foi uma surpresa para todos. Ninguém reagiu. Só sua esposa Dona Flaviana, católica fervorosa, que exclamou: – Donério! Não brinque com as coisas de Deus!

Donério afirmou que todos já tinham feito de tudo, rezas e promessas e nada de chuva. Só restando o pedido com a moeda. E reafirmou: – Eu vou fazer!

Fecharam o caixão e o enterro seguiu para o cemitério. O calor era enorme, mês de outubro e sol forte.

As primeiras nuvens começavam a aparecer no céu. Chegando ao cemitério, efetuados os preparativos finais, a criança foi enterrada. No céu, as nuvens aumentavam e começaram a ficar negras, antes das pessoas retornarem para suas casas. Começam a cair pingos grossos de chuva com raios e trovões. O pedido de Sr. Donério tinha dado certo. Forte chuva continuava a cair. Dizem seus moradores mais antigo que foi a chuva mais intensa que tinha caído naquele povoado.

Donério retornou, correndo com sua esposa para casa, chegando os dois molhados. A sua residência, um casarão antigo, era localizada ao lado do mercado, na frente da lagoa. As águas dos morros em volta de Umburanas iam todas para a lagoa, que logo começou a encher. Horas e mais horas de chuva, parecia um dilúvio. Dona Flaviana reclamava de Sr. Donério;

– Eu falei para você não brincar com as coisas de Deus. E ele dizia:

– O que todos nós queríamos era chuva!

Continuou a chover torrencialmente no povoado. A lagoa, antes seca, começou a acumular um grande volume de água. Não demorou muito para transbordar, através do seu sangradouro. As primeiras casas a serem inundadas foram as da rua da casa de seu Donério. Todos se deslocaram para outro lugar que não foi alagado. Só quem permaneceu foi seu Donério e sua esposa. Fato que chamou a atenção dos moradores mais próximos, que os aconselhavam a sair de sua casa. A sua esposa, ainda continuava a reclamar:

-Donério, tem coisas que a gente não deve brincar.

Ele, que era um pouco incrédulo, exclamou:

– Eu não sabia que a chuva estava tão barata. Se soubesse teria colocado uma moeda de menor valor no caixão para pedir a São Pedro chuva. Mas, parece que ele estava até fazendo uma liquidação. O preço estava realmente muito baixo. E o valor de quinhentos reis que coloquei está provocando esse dilúvio! Exclamou Donério.

Ele resistiu ao pedido dos moradores para que se retirasse da casa, mas sua esposa com medo, acompanhou os amigos. E foram para a parte mais alta do povoado.

A água continuava a subir atingindo as ruas próximas. A loja de Donério, que ficava ao lado da casa também sofria as consequências da chuva. Como o nível da água continuava subindo, dentro da sua residência, ele subiu em uma mesa, e, em seguida precisou subir em uma cadeira para ficar mais alto que o nível da água. Finalmente, as chuvas começaram a cessar. E, o nível da água foi baixando rapidamente. Os seus amigos do povoado, junto com sua esposa, todos preocupados, até pensando o pior com o Donério, que poderia ter se afogado, deslocaram aflitos para procurá-lo.

Chegando a sua residência, bateram na porta. Eis que para alegria de todos Donério pulou da mesa e abriu a porta.

-Viva! gritaram alguns, Donério está vivo!

Mas, eis, que para surpresa de todos, quando o nível da água baixou completamente, no meio da sala aparece uma moeda, preta como o carvão, de quinhentos reis. Donério olha e fala:

– Como eu reclamei muito que a chuva estava barata São Pedro me devolveu a moeda.

Criou-se, então, uma lenda de que a moeda quase provocou um dilúvio no povoado. E que São Pedro não aguentando as reclamações de Donério, devolveu-lhe a moeda.

Acreditamos que, por coincidência, a aparição daquela moeda na sala após a chuva, deveria ter sido perdida há muito tempo por alguma pessoa. E, que com a forte corrente de água foi parar no meio da sala da casa de Donério. Essa cultura da moeda, até hoje, de provocar chuva, é comentada.

Lembro-me que, no final do mês de fevereiro, uma forte chuva atingiu a nossa cidade. Estava em um dos bares na Avenida Santos Dumont, com amigos conversando, eis que de repente começa uma chuva torrencial. E aí começamos a brincar. Será que colocaram a moeda no caixão de uma criança que morreu com poucos dias de vida! Andaram por aí repetindo o gesto de Sr. Donério!

Esse fato também foi narrado no livro Episódios da Nossa Vida da professora e escritora Elzita Ladeia Teixeira.

 

Escrito por José Bonifácio Teixeira

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