As histórias do meu Tio Bisavô Donero Coutrim

O meu Tio Donero Coutrim, irmão de meu bisavô Generaldo Souza Teixeira, residia em Umburanas (Guirapá), que naquela época era distrito do município de Urandi. Fazendeiro e chefe político de grande influência daquele povoado. Fazia oposição ferrenha ao Coronel Ribeiro (nome fictício), prefeito de Urandi, do final da década de 20.

Donero estava irritado com as corrupções praticadas pelo Gestor municipal. Corajoso e inteligente, o meu Tio planejava e matutava ideias para atingir e desmoralizar o Prefeito, conhecido como Coronel Ribeiro.

Em suas andanças por Umburanas e Urandi, nas feiras semanais, nas vendas, nas farmácias, enfim, em todos locais de concentração popular entrava em contato com o povo. Começava a dizer para todos que o Coronel Ribeiro era um ladrão.

Não demorou, a notícia espalhou por toda região. O prefeito e seus amigos reuniram para analisar quais a medidas legais, que deveriam fazer para penalizar Donero Coutrim, que estava passando dos limites e desmoralizando o Coronel na região.

No final da reunião, chegaram à conclusão que era necessário contratar um advogado famoso, para entrar na justiça com processo contra Donero.

Após pesquisar, o Prefeito contratou uns dos advogados mais renomados da região, o Dr. Paulo (nome fictício). A notícia das providências tomada pelo Grupo dominante da política de Urandi, logo se espalhou. Donero, de imediato, foi alertado pelos amigos e aconselhado a parar de falar publicamente que o Gestor do município era ladrão. Mas, para surpresa de seus aliados e adversários, ele continuou a chamar o Coronel Ribeiro de ladrão. O advogado contratado, por mais de mil reis, estava ansioso e com pressa para mostrar sua capacidade profissional. Orientou pessoas de confiança do grupo para acompanhar Donero e anotar os locais, dia e hora que ele chamava o Coronel de ladrão.

Donero, percebendo que estava sempre seguido pelos seus adversários políticos, para surpresa geral, aumentou a dose e repetia, em suas andanças, que realmente o Coronel Ribeiro era um ladrão.

Dr. Paulo, de posse das informações, dos dias, horas e locais e de dezenas de testemunhas montou um processo de calúnia e difamação, dando entrada do mesmo no Cartório de crimes do Fórum de Urandi. Protocolado a representação, o Juiz de Direito da Comarca determinou dia e hora para a audiência. O oficial de justiça notificou Donero.

Seus amigos, preocupados, orientaram-o a contratar um famoso advogado da região. Entretanto, para surpresa dos seus amigos, Donero estava calmo e dizia que não precisaria de advogado para defendê-lo. A notícia logo se espalhou.

O Prefeito achava que ele estava fazendo suspense e que logo contrataria um advogado. Todavia, passavam os dias e nada dele contratar um defensor. Seus aliados estavam preocupados, pois temiam que sem um advogado para defendê-lo, Donero seria processado e preso.

Finalmente, chega o dia da audiência. Donero aproxima da porta do Fórum de Urandi, acompanhado por centenas de seus aliados e adversários. Parecia um jogo de futebol com as torcidas organizadas, na hora certa.

Donero entra na sala de audiência. Lá já estavam o Coronel e seu famoso advogado. O juiz, ao passar de seu Gabinete para a sala de audiência, vendo que Donero não estava acompanhado de advogado, propôs a ele que iria adiar a audiência para ele contratar um advogado.  Até propôs a nomear um Defensor gratuito. No entanto, para surpresa de todos e alegria do Coronel e de Dr. Paulo, Donero recusou as propostas do Juiz.

Iniciada a audiência, o oficial do cartório leu o processo. O juiz deu uma oportunidade para que Donero se RETRATASSE das acusações feitas ao Prefeito, que fora chamado de ladrão em diversos locais do município. Era sua única oportunidade de dizer que estava brincando, e pedir desculpas ao Coronel. Se ele se retratasse perante o coronel o processo seria arquivado. Porém, para surpresa do Juiz e alegria do acusador e seu advogado, Donero confirmou que o Prefeito era um ladrão. E, solicitou que o juiz dispensasse as testemunhas de acusação, pois não tinha mais necessidade de ouvi-las diante de sua confirmação.

O juiz, dando prosseguimento à audiência, solicitou que o Sr. Donero apresentasse as provas de acusação. Nova supressa, Donero falou que não tinha nenhuma prova. O juiz continuou a interrogar o Sr. Donero, perguntando, afinal, o que tinha para sua defensa.

Donero falou:

– Dr. Juiz, por favor, pegue o dicionário que está na estante.

Com o dicionário na mão, o juiz perguntou novamente a Donero:

– Qual a sua defesa?

– Dr. Juiz, com todo o respeito, abra o dicionário e leia o significado da palavra ladrão.

O juiz abriu o mesmo e leu. “Ladrão – desvio feito para retirar acúmulo de água de estradas, barragens, lagoas; broto ou rebento, geralmente infrutífero e rigoroso, que aparece na base do tronco ou na vizinhança das raízes”. Era o significado da palavra ladrão, no dicionário daquela época.

Quando o Juiz terminou de ler, Donero perguntou:

– Doutor, o Coronel é um ladrão? O Juiz respondeu instintivamente. – Não!

Então, Donero, em seguida, falou: – Realmente, ele não é um ladrão, mas é pior que sete ratos caianos. O Juiz, perplexo e surpreso, percebendo a linha de defesa do Sr. Donero, para não se expor novamente e ler o significado da palavra rato, guardou o dicionário, deu a audiência por encerrada, mandando arquivar o processo, por falta de consistência legal.

Na saída do fórum, Donero foi cercado e carregado pelos seus aliados, que com festas e foguetes, gritavam a palavra de ordem: Viva Donero! Viva Donero!

O Coronel saiu do fórum, acompanhado de seus aliados, que estavam todos cabisbaixos e tristes. Inconformado com a decisão do juiz da Comarca de Urandi, o Coronel Ribeiro solicitou que o seu advogado entrasse com recurso no Tribunal de Justiça da Bahia. Com esse ato, obrigou Donero a contratar um advogado para acompanhar esse recurso,em Salvador. Apósanos o Tribunal de Justiça de Salvador não acatou o recurso.

O Coronel, novamente inconformado, através de advogados, recorreu para o Superior Tribunal de Justiça, no Rio de Janeiro, que era capital do Brasil, naquela época. O Coronel e Donero continuaram a gastar altos valores com advogados, no Rio de Janeiro, onde o recurso continuava tramitando. Após anos cessaram a rivalidade entre o Coronel e Tio Donero. O famoso recurso foi julgado improcedente e arquivado no Superior Tribunal. Dizem que os dois gastaram em torno demais de 10 mil contos de reis com essa demanda.

Quando foram informados da publicação do resultado do processo no Rio de Janeiro. Um falou para o outro: – Está vendo como fomos orgulhosos e teimosos! Gastamos uma fortuna por mantermos nossas opiniões.  E, em seguida, um pegou na mão do outro. Dizem que o Coronel e o Tio Donero nunca mais voltaram a brigar.

Artigo escrito por José Bonifácio Teixeira.

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