A transferência da Zona do Baixo Meretriz, da antiga Rua dos Porcos (Rua General Osório) para o Cascalho (bairro São José)

Guanambi, desde os tempos de Beija- Flor, era conhecida em toda região pelo apelido do Quebra. Devido ás casas de mulheres, bares e casas de jogos. Rapaz ou homem dado à farra que ia para Beija-Flor, em poucos dias de permanência ali, se achava arruinado financeiramente, estava “quebrado”. Segundo o escritor Teixeirinha em “Respingos Históricos” (1992, pag. 51).

Em torno de 1964, com o crescimento da cidade, a zona de meretriz se fixou na beira da lagoa, na Rua dos Porcos e adjacências. Os moradores daquela região estavam inconformados com a convivência indesejada com aquelas casas de mulheres e o transtorno causado pela Zona Boêmia. Organizaram e apelaram para o Prefeito e Vereadores, daquela época, para que eles apresentassem uma solução, transferindo as casas daquelas mulheres para outro local pouco habitado da cidade.

O poder executivo apresentou um projeto na Câmara de Vereadores, que foi aprovado. Criou um novo local chamado o Cascalho, onde tinha toda infra-estrutura necessária para a construção e funcionamento da nova Zona. Muitas daquelas casas da Rua dos Porcos foram fechadas e suas moradoras construíram novos pontos comerciais de exploração do sexo naquela área. A maior parte daquelas mulheres insistiam em permanecer no antigo local da zona meretriz, continuando a incomodar os moradores da área.

Os habitantes da Rua General Osório reuniram e procuraram uma forma jurídica para a transferência das remanescentes da zona, que insistiam em permanecer naquela região. Através de um advogado, entraram na justiça com ação popular para alcançar seu objetivo. A referida ação foi julgada favorável. O juiz da época, Pedro Bento de Morais, estabeleceu na sua sentença o prazo de 30 dias para que aquelas mulheres transferissem a sua residência para o Cascalho.

Decorrendo o prazo estabelecido os oficiais de justiça não conseguiram cumprir aquela determinação judiciária. O advogado dos moradores em audiência com o juiz solicitou que o prazo fosse cumprido. Dr. Pedro sentindo que seu mandato judicial não tinha sido realizado resolveu pessoalmente comandar uma operação de desocupação daquela região. Requereu da prefeitura caminhões e pessoal de apoio para a remoção. Junto ao delegado solicitou a força policial. Organizou-se uma verdadeira operação de guerra. O juiz comandou a operação, como se fosse um general, com seu jeep Willys, dirigido pelo seu motorista Paulinho.

A notícia da famosa operação espalhou-se rapidamente pela cidade, que na época tinha pouco mais de 5 mil habitantes. O roteiro da operação passaria pelas ruas Getulio Vargas, Rui Barbosa, Manoel Novais e Avenida Guanabara, que era o última habitada do trajeto. Seus moradores esperavam com expectativa o famoso comboio.

As mulheres foram pegas de surpresa com aquela operação do juiz de Direito, umas choravam, outras imploravam, mas seus pedidos não foram aceitos. Os trabalhadores da prefeitura, por orientação de Dr. Pedro, foram logo pegando os móveis das moradoras e colocando nos caminhões, inclusive suas famosas penteadeiras com os seus perfumes. Todas foram obrigadas a subirem no caminhão, iniciando a tão famosa remoção.

A expectativa no centro da cidade era grande. Os moradores aguardavam na porta das suas casas a passagem das mulheres. Os homens casados, frequentadores daquele local, preocupados, já planejavam desculpas para não verem passar aquelas mulheres, pois muitos deles temiam ser reconhecidos. As mulheres, já refeitas do susto daquela operação, começaram a fazer brincadeiras, para mostrarem aos homens que estavam aglomerados nos pontos principais daquelas ruas. Levantavam os seus vestidos mostrando as suas partes íntimas.

O juiz, que criteriosamente comandava a operação, parava os carros e ordenava ás mulheres que se compusessem. Elas aparentemente obedeciam à ordem, mais logo na frente começavam a brincar, suspendendo seus vestidos, convidando os homens para visitá-las em seu novo local de trabalho. O juiz voltava para o cortejo reclamando das mulheres sua postura. Os homens que assistiam caiam todos em gargalhadas. Até muitas senhoras achavam graça daquele comportamento. Preocupados só estava os frequentadores da zona. Muitos deles apresentavam de repente uma dor de barriga, outros inventavam desculpas que iam fechar negócios no bairro Vila Nova, ou falavam com suas mulheres para trancarem a porta para não verem o desfile daquela servegonhice.

Finalmente, o juiz conseguiu finalizar a operação com a chegada no Cascalho, onde as novas inquilinas procuravam as casas que já existiam naquele local para continuar exercendo a sua atividade de profissional do sexo, que naquela época fazia alegria dos seus frequentadores.

O Cascalho alcançou sua época áurea na metade da década de 70 com o pique do crescimento da economia da região, originado pelo plantio do algodão, tendo a cidade de Guanambi como sede regional.

Até meados da década de 80 funcionava aquele local com as suas famosas casas, a exemplo a de Norbélia, frequentada por parte da elite financeira da região. Existem ainda hoje naquele local alguns pontos remanescentes daquela época.

Artigo escrito por José Bonifácio Teixeira

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